Lição de Thiago de Mello

picture (77)Uma das mais fascinantes personalidades que conheci ao longo da já longa jornada foi o poeta Thiago de Mello. Ele me ensinou que, para viver, poucas coisas têm importância. Conheci-o quando residia na nossa quase vizinha Itatiba, em memorável entrevista que me deu para o Correio Popular, uma série que deverá transformar-se brevemente em livro.

Thiago dizia-me de suas lembranças de quando, exilado, morou na França, onde se tornou amigo de poetas, escritores, pintores. Entre eles, os dois grandes Pablos do século passado, Neruda e Picasso. Certa vez, contou-me, um ricaço dos Estados Unidos, passeando pela Europa, encomendou um quadro a Picasso. Como fosse, por três meses, passear por outros países, haveria tempo de Picasso criar e lhe entregar o quadro encomendado, ao preço de 100 mil dólares.

Lembrava-se, Thiago de Mello, que, com o tempo passando, ele próprio começou a inquietar-se, pois Picasso parecia nem lembrar-se da encomenda do milionário estadunidense. Nada falava, não dava sinais do quadro. Até que o milionário chegou e procurou o pintor no restaurante que ele freqüentava. Picasso, sem demonstrar qualquer outra reação, pediu que, no dia seguinte, o milionário estivesse em sua casa para receber a tela e fazer-lhe o pagamento.

Ora, Thiago sabia que Picasso não tinha pintado quadro algum. Mas, como combinado, o milionário dos Estados Unidos apareceu na casa do pintor – onde Thiago também morava – e lá ficaram eles sentados, bebericando. Em dado momento, Picasso pediu licença e, meia hora depois, retornou com um quaadro na mão, a tinta ainda fresca, avisando o homem para tomar cuidado pois, estando ainda fresca a pintura, poderia haver borraduras.

O gringo dos EUA protestou: “100 mil dólares or um trabalho que você fez em apenas meia hora?” E Picasso, sem se alterar, apenas respondeu: “Você está enganado. Levei quarenta anos para pintar esse quadro…” Era toda uma vida de aprendizado, de estudos, de aperfeiçoamento de técnica que estavam no pequeno quadro. Pragmático, o americano não havia entendido. Mas pagou, certamente sem ter valorizado o que ali estava, toda uma grande obra numa tela pintada em apenas meia hora.

Lembrei-me novamente disso por força da reação de uma velha amiga, diretora de multinacional. Lá estava, eu, em seu escritório, conversando enquanto ela, apavorada, lutava com um texto de apenas 20 linhas que ela precisaria submeter à apreciação de seus diretores. Tentava, deletava, começava de novo, não conseguia. Tinha a idéia, sabia o que pretendia escrever, mas o texto não saía. Desistiu e pediu-me que a ajudasse. Sentei-me à mesa do computador, ouvi o que ela tinha a dizer, dedilhei, o texto saiu em alguns minutos. Ela suspirou: “Ah, como para você é fácil, como sai tão depressa… Obrigadão, hein?”

Lá me veio à lembrança, novamente, Thiago de Mello. Ora, bem ou mal, medíocre ou tolo, para escrever aquele texto eu levara exatos 53 anos de profissão, de exercício, de estudos, de suores e lágrimas. Mereceu um “obrigadão, hein?” Bom dia.

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