Martha Watts, templo e mercado

pictureA rua Boa Morte é mágica. Também , para mim, nascido na esquina dela com a Moraes Barros. De lá, vi o mundo. Que me parecia imenso, em tão poucos quarteirões. Vi a imensidão infantil levado pelo bonde, olhando as mesmas paisagens que me pareciam misteriosas. Mas com uma certeza: os caminhos que iam eram os mesmos que voltavam. A vida estava nos trilhos.

Mágica e misteriosa, a rua Boa Morte. Na minha esquina, a fúria santa de Monsenhor Rosa, batina preta, a severidade da Igreja Matriz. Logo adiante, o grande mistério, lugar proibido: o Colégio Piracicabano, “antro” de protestantes e de maçons. Meu pai era maçom. Pior para mim: passar pela calçada do “Colégio”, era, se não pecado mortal, desafiar o mundo católico.

Da calçada fronteiriça, eu olhava aquelas colunas imensas, deslumbrado com a beleza delas, imaginando fossem a Acrópole grega ou a casa de Scarlet O´Hara, de “… e o vento levou”. Aquele prédio, diziam-me, tinha sido construído por uma missionária protestante, vinda dos Estados Unidos, Martha Watts, amiga de Prudente de Moraes, o maçom. Prudente e Martha eram agitadores. O mistério fascinava.

Aquele colégio é sagrado, mesmo que Davi Ferreira Barros não saiba disso ou queira também matá-lo em sua fúria iconoclasta, em seu horror freudiano a tudo o que remeta a grandezas do passado. Fico apalermado diante dessa cúpula da Igreja Metodista que permite tanta destruição em tão pouco tempo. Ou essa igreja também perdeu a memória, a notável memória de sua fecunda e bela história em Piracicaba? Por obra de Almir de Souza Maia, aquele prédio símbolo dessa história se transformou em Centro Cultural que leva o nome de Martha Watts, a mulher e missionária metodista que plantou um monumento de cultura e de fé em Piracicaba.

À entrada do novo Centro Cultural, que leva o nome dela, estão dois retratos que sintetizam toda uma história: o de Martha Watts, o de Prudente de Moraes. Eles saúdam quem chega, dão as boas vindas, como se dissessem: “entre, a casa é sua.” Por enquanto, antes que Davi Barros os destrua com o silêncio cúmplice do Colégio dos Bispos Metodistas, uma entidade que se torna cúmplice de erros, de ilegalidades e de destruições.

É isso o que estou querendo dizer: é nossa, de Piracicaba, a casa de Miss Martha Watts, agora transformada num centro de cultura e num museu que, após detalhada restauração, deslumbra e emociona por sua beleza e história. Almir de Souza Maia e seus companheiros do Instituto Piracicabano, do Colégio, da Unimep, entregam, a Piracicaba, uma obra que não encontra similar nas cidades interioranas do Brasil. Como um conto de fadas, o Colégio Piracicabano reassume a sua majestade bem no coração de Piracicaba, transformando todo o centro urbano, revitalizando-o, tornando-se, novamente ponto de encontro, de cultura, de transformação. É o Renascimento.

Mas há coisas que se não contam e que se não escrevem. A beleza entra pelos olhos. A magia, também. O que é milagre, senão maravilha? Quem mira se espanta; quem admira, espanta-se ainda mais: o “miraculum”, o milagre, maravilhas prodigiosas. Basta atravessar a soleira da porta daquele edifício para o espanto entrar pelos olhos, para a emoção chegar ao coração.

Na Rua Boa Morte, por cuja calçada não se devia passar, os metodistas presenteiaram Piracicaba com mais milagres de doação. Martha Watts e Prudente de Moraes – olhando-nos à entrada do majestoso Centro Cultural – mais do que dizer-nos que a casa é nossa, como que nos previnem: “Preparem o coração para a magia do tempo. Estamos vivos. ”

Aquela rua, pois, é mágica. E paciente. O tempo caminhou, a rua testemunhou milagres de confraternização. Hoje, não há calçadas de lá, calçadas de cá. O bonde descansa. Iras calaram-se. Espíritos pacificaram-se. E, no alto daquele prédio majestoso, o espírito de Martha Watts ocupa os aposentos de cuja janela ela contemplava a paisagem deslumbrante de entardeceres sobre o rio. Podemos, agora, todos, olhar de onde ela olhou.

Foi um renascimento, sim. Bispos Metodistas não podem ser cúmplices de Davi Barros nessa destruição progressiva. Serão punidos pela História e, também, por Deus, que, através de Cristo, nos indicou o que fazer com os mercadores do templo. Templo e mercado não combinam, apesar de Davi Barros não estabelecer diferença entre um e outro. Até quando bispos metodistas concordarão em ser mercadores? Bom dia.

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