Melindres da imprensa

A imprensa brasileira já sofreu mais do que o suficiente durante a ditadura militar. O retorno à liberdade se tornou um bem ainda mais valioso dado que, na maioria das vezes, apenas damos conta de um bem quando o perdemos. A liberdade da imprensa é fundamental para o fortalecimento de povos e nações democráticos. Mas não se trata, no entanto, de uma liberdade incondicional, um direito sem deveres, liberdade gratuita. A liberdade implica responsabilidade. E, portanto, também deveres.

Não se pode aceitar, por conseguinte, que a imprensa, por ser livre, se dê direitos acima dos estabelecidos pela ordem legal e moral. Primeiro: qual é o papel, qual a responsabilidade, qual a missão da imprensa? Ela é um atividade apenas lucrativa ou um serviço social às comunidades? Os interesses empresariais de um veículo de comunicação podem se colocar acima da responsabilidade de informar e, portanto, de formar? Quem são, hoje, os verdadeiros formadores de opinião, já que parte da grande imprensa brasileira se rebelou, ainda outra vez, contra o Presidente Lula por este advertir quanto à realidade e a “pauta dos editores”? Comunicação é o ponto de vista apenas do emissor ou é a correlação entre emissor e receptor:? Ou seja: o leitor, o ouvinte, o telespectador são passivos ou ativos na comunicação?

A imprensa brasileira – a quem o Brasil deve grandes conquistas na consolidação de direitos e da própria liberdade do povo – não pode ter melindres de diva com faniquitos quando contestada, discutida ou confrontada. Ela não é vestal intocável. Pois não mais se pode negar que, nas últimas décadas, o papel da imprensa começou a se transformar dada a cumplicidade nem sempre legítima com grupos de poder. Temos, hoje, verdadeiros impérios empresariais na área de comunicação, defendendo valores que nem sempre são os do povo e da nação, das comunidades e dos municípios. Ora, na grande discussão ideológica, filosófica e econômica a respeito do papel do Estado, as divergências são tantas quantos forem os interesses em jogo. Se se defende a economia de mercado ou a filosofia neoliberal já fracassada, há interesses que se entrechocam com a busca de uma distribuição de riqueza mais justa e decente. A imprensa aceitou ser parte desse jogo e, portanto, vai-se colocando como uma instituição que abriu mão de sua pretendida imparcialidade. Pois imparcialidade não existe e isso não minimiza e nem deslustra o papel da imprensa, desde que ela assuma a sua posição e definição ideológica com clareza e honestidade.

No Brasil, hoje, agências de notícias se tornaram os verdadeiros fornecedores da informação, inclusive nas redações de jornais, até nos pequeninos municípios. Logo, a notícia mostra sempre uma face e uma origem, quase sempre, como era nos gramofones antigos, “a voz do dono”. A informação se tornou hegemônica. Quando Lula fala que a verdadeira fonte da notícia está no povo, ele tem absoluta razão e, de minha parte – e como jornalista veteraníssimo – creio ter alguns testemunhos a dar.

O mais importante deles, inclusive surpreendente para mim mesmo, foi quando, como proprietário e diretor de O DIÁRIO, inverti um dos esquemas habituais de reportagem, pautadas pelo editor. Acontecera que, honrado a participar de discussões sobre os caminhos da imprensa, promovidos pela CNBB e pelo CELAM, fui movido a maiores reflexões após muitos estudos, congressos, debates, reuniões. Já se falava, na década de 1980, dos efeitos ainda preliminares da internet, da comunicação eletrônica. E do novo papel da imprensa, que deveria se tornar mais investigativo, mais opinativo, com a informação sendo mais rápida, para não dizer que fulminante e imediata.

A minha primeira decisão, em O DIÁRIO, foi deixar de pautar a reportagem, permitindo que o povo se manifestasse em vez de o repórter dar sua opinião. Criei os Murais do Povo, nos quais as comunidades escreviam bilhetes, deixavam reclamações, pediam providências. A surpresa foi impactante. Num bairro onde, por exemplo, o repórter – com sua visão pessoal de mundo – via como necessidades vitais o serviço de água ou de esgoto, educação, a população dava prioridade absoluta à falta de condução e de um telefone público. Eram as prioridades vitais. E, a partir das constatações, as reportagens se foram tornando mais vivas, mais autênticas, mais legítimas. Adotamos, então, o lema que fora proposta pela CNBB: “ser voz dos que não têm voz”.

O novo fenômeno na imprensa já está sendo o dos jornais de bairros, das rádios e tevês comunitárias. Os grandes veículos empresariais caminham, cada vez mais, para ser fortes meios publicitários e, cada vez menos, meios jornalísticos. O inverso começa a acontecer e Lula tem razão: o povo começa a pautar a imprensa e, assim, tornando-se, ele próprio, povo, o principal formador de opinião. A grande imprensa está incorrendo num erro falta: ela fala para si mesma e para seus iguais. Quando se sabe que a média da tiragem dos grandes jornais não chega mais a 400 mil exemplares diários em edição nacional, pode concluir que jornais e revistas, no papel, estão atingindo um público alvo que, na verdade, já tem opinião formada. Bom dia.

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