Mudança de lua.

Vou aprendendo, mesmo correndo o risco de tornar-me primitivo, pagão. Descobri, por exemplo, que, da mesma forma como as marés ou as plantas, a mudança da Lua me atinge. Ainda não consegui entender todo o ciclo, o fenômeno. Mas ele existe e eu o sinto. Minha mulher sabe disso e entende, mais do que eu mesmo consigo entender. Ela me pergunta: “Mudou a lua?” E eu entendo que ela, até mesmo mais do que eu, percebe a transformação. Não sei se é preguiça ou preconceito, mas me recuso a anotar, em algum canto de papel, o que me acontece em cada mudança de lua, em cada lua.

Sei, apenas, que acontece. Mas fujo de entender, de procurar aprender. Sou, afinal de contas, um cristão e um cristão precisa viver de seus dogmas. São leis. Fora delas, não há salvação. Não acredito mais nisso e, no entanto, isso me é, ainda, um referencial. A Lua, com suas mudanças e influências, não tem grande importância nos evangelhos. Mas eu as sinto. Preconceituosamente, porém, fujo delas. E como a chuva.

O céu pode estar azul e límpido, o céu “de brigadeiro”, como dizia o Aporelly, Barão de Itararé. Ou um céu anil, como diriam os poetas indigenistas, rimando-o com Brasil. Azul ou anil, meu corpo, no entanto, não confia nesse céu sem nuvens. Pois, de repente, as coisas acontecem: o calor intenso, mesmo quando está frio; os suores abundantes; a prostração. Minha mulher me olha, vê o céu azul e anil, fala: Vai chover. Ela me entender. Eu não me entendo, fujo de entender, pois, se busco entender, tudo se complica. E, ao mesmo tempo, tudo se torna mais simples. No mais fundo de cada um de nós, há a necessidade de não entender.

Precisamos do não-entendimento, da criação de mistérios, de uma resposta transcendental aquilo que faz parte do cotidiano. Temos medo do cotidiano. O óbvio nos amedronta. De minha parte, estou descobrindo o óbvio. Sinto-o, mesmo não o compreendendo ou não querendo aceitá-lo ou admiti-lo. Confesso-o: há um medo de verme pagão, pois, ao tornar-me cristão, fui-me em direção ao sobrenatural, desprezando e minimizando o que está diante dos olhos, na natureza. Há vida, em todos os cantos, em todos os lugares. No coração dos cristãos, no entanto, há morte. Isso está errado, tem que estar errado. A cruz não é símbolo de morte, mas de vida, de ressurreição. Não via isso nas igrejas. Mas estou vendo essa ressurreição nas plantas do meu quintal, nos animais, nas mudanças vivificantes da Lua, em cada temporal, em tudo o que existe.

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