Mudar para continuar como está

PulandoUm dos livros mais famosos dos 1950s foi “O Leopardo”, de Tomasi de Lampedusa. A consagração veio com o filme do mesmo nome, interpretado,  entre outros, por Burt Lancaster. Do romance e do livro, tornou-se clássica, no entanto, uma das suas afirmações: “É preciso mudar para continuar como está.”

Parece que quase ninguém – a refletir-se sobre a campanha eleitoral que ora se encerra –  sabe disso.  No entanto, os franceses , secularmente, usam a expressão popular com o mesmo significado: “Plus ça change, plus c’est la même chose.” Ou seja: “Quanto mais muda, mais continua a mesma coisa.”

Admito não ter – por questão terapêutica de corpo e espírito  – acompanhado programas políticos e nem de ter assistido a qualquer debate. Pois, chega-se a um tempo da vida em que quase tudo se torna previsível, de tão repetitivo e monótono. Aliás, é bíblico: “Nada há de novo sob o Sol”. Ou, como é agradável, aos portugueses, afirmar: “Tudo como dantes no quartel de Abrantes”. Viver é uma deliciosa aventura. Apesar de tantos engodos e mistificações.

A perda de senso de ridículo – pelo que leio em jornais, revistas, internet – chegou ao pleno ridículo. Políticos não sabem mais o que dizem, negando o que disseram antes, usando os mesmos argumentos seja para justificação de atitudes, seja para a condenação das mesmas nos adversários. Lembram-se de quando os tucanos diziam que Lula e Dilma nada mais faziam do que aplicar o sistema econômico que eles haviam implantado?  Pois bem. Agora, dizem que a economia – a deles! – fracassou. Antes, Fernando Henrique dizia, orgulhosamente,  que seu governo criara o Bolsa Família. Agora, a Bosla de Lula/Dilma é enganadora.

Ora, a vida é movimento. E isso implica mudanças. Mudanças constantes. Algumas são até mesmo banais, que não influenciam no caminho dos que as fazem. Mas há mudanças e opções  totalizantes, que alteram profundamente a vida de pessoas e povos. No particular, por exemplo, a decisão de casar-se é, para quem a toma, uma opção totalizante com mudança também totalizante. Na política, mudar apenas pessoas e partidos é insignificante, pois não altera o cerne das coisas. O nome de profundas e radicais transformações é outro: revolução. Que pode ser sem armas.

E – já me canso de bater na mesma tecla – que se não fale mais em corrupção enquanto não se mudar completamente o sistema, enquanto não fizermos, portanto, a revolução moral, política, social. A manipulação das denúncias chega a ser ofensiva a quem tem um mínimo de senso crítico. Por que não se fala e não se divulga o que aconteceu antes do chamado “mensalão”? Por que não se denunciam os escândalos das privatizações, da compra de deputados e senadores para votar a reeleição? Como a imprensa partidária não divulga, sugiro – a quem tiver interesse em informar-se – a leitura de “O Príncipe da Privataria”. A conclusão será triste: o “mensalão” foi coisa de amadores.

Vamos, pois, às urnas. Todos querem mudanças, até mesmo os que estão no poder. Mas quais? Como? Com que estrutura partidária no Congresso? Qual a diferença essencial entre eles, Dilma, Aécio, Marina? E, em especial, o que difere Marina de Aécio?  Falácias. Lampedusa observou amargamente: “mudar para continuar como está.” Os franceses continuam sabendo disso: “quanto mais muda, mais tudo fica a mesma coisa.”

Talvez, o caboclo brasileiro também esteja certo em sua sabedoria: “Deixar estar para ver como fica.” Bom dia.

1 comentário

  1. Marilena em 01/10/2014 às 12:44

    Muito bom o artigo!

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