O bicho homem indomesticado

picture (31)Pessoas que escrevem – pelo menos em algum momento – podem, até, ser ricas em descrições e detalhamentos. No entanto, são sempre pobres em explicações. É como se vivessem mais da intuição, percebendo aquilo que existe sem estar perceptível. Mas sem entender. Sem conseguir explicar. De repente, o homem de ciência consegue moldar essa intuição – aquele “não sei quê” – transformando-a em conhecimento. E, no entanto, o mistério do ser humano permanece.

Há momentos – e estão sendo cada vez mais freqüentes – em que, mais do que mistério, penso ser, a humanidade, uma excrescência da natureza. Seria como se uma desordem atingisse o sistema – uma certa entropia, de que falam os cientistas – e o homem surgisse dela. Como se fizeram as águas e os céus, fez-se o bicho diferente. Especial e misterioso, sim, em suas belezas. Mais ainda, no entanto, em suas misérias.

É estarrecedora a revelação de que 20% das mulheres de todo o mundo já foram vítimas de estupro, violência e alguma forma de molestamento. São, portanto, quase um bilhão de mulheres alcançadas pela ferocidade animal do bicho homem que parece ser o mesmo por diferentes sejam as culturas e as civilizações. Como falar-se, pois, em busca de paraísos perdidos, em esperança de fraternidade – se o bicho nem sequer foi, ainda, domesticado? A fera continua à solta, à espreita, animal à espera de domadores que a recolham a jaulas.

Nossos ancestrais – acreditando que o paraíso estivesse nas alturas, nos céus – viram, em contraposição, o inferno nas funduras da terra, de onde sairiam demônios, diabos, o fogo eterno. Não quiseram – como também continuamos não querendo – perceber que demônios e inferno estão na face da terra, caminhando sobre ela, muitas vezes ao nosso lado. Milhões de anos já se foram, o cristianismo entra em seu terceiro milênio, e a raça humana permanece vivendo a sua própria tragédia, como se as civilizações nada lhe tivessem ensinado. Pelo contrário, os humanos sempre destruíram as próprias civilizações que construíram. Como vamos destruindo a nossa.

Como entender que o homem tenha chispas do divino e, ao mesmo tempo, fúria demoníaca? O mesmo ventre de mulher que deu à luz um Goethe e um Mozart pode, também, gerar um Hitler. Do ventre humano brotam, ao mesmo tempo, santos e bandidos, músicos que nos aproximam dos céus e tarados que nos desanimam das belezas humanas. A expressão sartreana de que “o inferno são os outros” é incompleta, pois o nosso céu também são os outros.

Muitos milhões de mulheres violadas em todo mundo revela essa dimensão dantesca da fera humana, do bicho homem que não foi domesticado. Num raciocínio grosseiro – apenas como referência para reflexão – estariam à solta cerca, também, muitos milhões de de estupradores. Espalhados em todos os quadrantes, em todas as culturas, à sombra de leis democráticas e de regras tirânicas, de religiões e filosofias as mais diversas.

A simplicidade é atributo dos gênios. Gênio, Thomaz Mann deixou-nos a constatação simples mas imensa em sua revelação: “Não há homem que não mude quando se conhece a si mesmo.” Talvez, valesse-nos como lição para o coletivo: não haveria sociedade que não mudasse, se se conhecessem a si mesmas. Porque, olhando as próprias entranhas, as comunidades veriam dos males que sofrem, dos cânceres que as corroem. E compreenderíamos que, diante deles, a nossa excessiva tolerância, o individualismo e a permissibilidade prenunciam, apenas, um suicídio coletivo. Bom dia.

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