O céu não tem igrejas

picture (22)Há alguns anos, estive próximo de romper com Neruda. Há agonias demais em sentir que um outro fala o que não se consegue dizer. Por isso, além de Neruda e para livrar-me de agonias, quis romper com Fernando Pessoa. E com Cecília Meirelles. E com Adélia Prado. E sei lá mais com quem.

Não sei se hábito, se vício, mas, antes de iniciar meu trabalho, eu abria uma página deles. Então, eram espinhos que se me cravavam na alma. Devagarinho. Quis deixa-los. Mas, diante de maravilhas, é impossível impedir Pessoa apareça de um cantinho do infinito para seu eterno sussurrar: “O Mundo não se fez para pensarmos nele – (Pensar é estar doente dos olhos.) mas para olharmos para ele e estarmos de acordo.”

Um dos meus erros foi aceitar que Neruda me aguarde com a pergunta de cada manhã, o livro póstumo que parece um testamento. Não me esqueço da manhã em que abri, folhei, Neruda me enviou o recado, fazendo a pergunta: “Quantas igrejas têm o céu?”

São provocações intensas. E sabedoria infinita. Pois, na verdade, quase sempre estamos doentes dos olhos, pensando demais e quase nada enxergando. Aqueles místicos – que permitiam os olhos passeassem por vazios – enxergavam o que ninguém via. Isso é contemplar. A contemplação escancara visões que os olhos não alcançam. Por isso, Neruda, talvez soubesse a resposta. Sei lá o que ele sabia, se ainda sabe, mas, para mim, não há igreja alguma no céu. Igrejas são humanas demais e o céu não é lugar de humanidades.

As humanidades hão que acontecer gloriosamente entre as coisas terrenas. Almas gostam, precisam de espaços físicos, assim como o olhar contemplativo dos místicos busca tesouros. Almas voam, voejam, perambulam, talvez sejam como nuvens vagando pelos céus, tocadas por anjos invisíveis. Ou elas próprias são anjos, esses de histórias feitas de ternuras.

Fora dos corpos, devem sentir saudade. Mas não acredito em almas que reencarnam, que voltam, que dizem reincorporar. Não creio, mas entendo: deve ser horrível existir e não ter corpo de carne, de músculos, de nervos, de hormônios. Longe do corpo, a alma deve sofrer de nostalgia. Se fosse comigo, eu tentaria voltar, sim, a qualquer custo.

Ora, de quando em quando, nas garatujas que rabisco, há alguém dizendo considerar-me um homem feliz, nesse insuperável vício humano de querer medir, definir, pesar felicidade. Ora, não sei se sou. Nem mesmo sei se estou. Mas tenho estado, pois aprendi a estar. Angústias e inquietudes são parte do milagre. O homem será tolo demais se não lhe bastar a própria vida para estar feliz. O sentido da vida é a vida. É preciso, apenas, fome de viver, gula de viver. O pouco não sacia. O segredo está em tudo querer, sabendo pouco poder. Como diante da mesa do banquete, com todas as iguarias. Petisca-se tudo, um pouquinho de cada. Não se empanturra de nada, embriaga-se do mínimo de cada especiaria. Estar feliz, penso eu, é querer tudo, sabendo que terá pouco. Ou, então, despojar-se de tudo.

É tal o milagre da vida humana que vivo com a impressão de haver momentos em que Deus sente inveja do homem ou vive a saudade dos tempos em que se fez humano: ao ouvir uma sonata de Beethoven; ao ver uma pintura de Rembrandt; ao espiar um casal enamorado; diante da mãe amamentando um filho. Essas coisas não têm no céu, por humanas demais.

Logo, Neruda está equivocado: o céu não tem igrejas. Quem acreditar nisso está doente dos olhos. Pois almas não freqüentam igrejas. Gostam de morar em corpos. Entristecem-se, apenas, se ficarem pequenas. Bom dia.

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