O “dono” de mim

Fonte: website da Arquidiocese de Campinas

Fonte: website da Arquidiocese de Campinas

Duas primas do segundo bispo de Piracicaba, D. Aníger Melilo, escrevem-me a respeito de reflexões que fiz sobre ele. Na secção “Tipos Inesquecíveis”, cá deste jornal eletrônico, comentei a pessoa excepcional que ele foi, o homem santo, semeador de generosidade e de sabedoria. Em minha vida, de maneira especial, D.Aníger Melilo teve papel preponderante. E a saudade aumenta e as lembranças aquecem o coração.

Minha mãe me dizia que, quando grávida de mim, ela teve vontade de comer “crista de galo frita”. Era mentirinha dela. Mas, com isso, ela tentava explicar a minha rebeldia, a disposição para sempre aceitar o bom combate, embora muitos deles não tivessem sido tão bons assim. Na verdade, fui mesmo, desde a infância, rebelde. E admito ter, ainda, resquícios disso. Nem de meus pais eu aceitava imposições, na aventura de sempre desobedecer suas ordens, enfrentando-os.

Lembro-me de duas passagens inesquecíveis de minha infância, entre muitas outras. Certa vez, sei lá que desobediência fiz e meu pai – um homem calmo, sereno – enfureceu-se. E, quando ele enfurecia, dava medo. Recordo-me das muitas vezes que aquele homem pacífico se transmudava em guerreiro irracional quando, em jogos de futebol, ouvia adversários falar mal do “Nhô Quim”. Ele saía aos tapas e toda sua doçura se tornava acre. O XV, além da família, era sua grande paixão.

Então, não me lembro o porquê, enfureci meu pai. Ele correu atrás de mim e eu, apenas de calção como crianças usavam, pulei no muro, subi no telhado de um ranchinho do quintal e, finalmente, cheguei ao telhado da casa. Ele não poderia alcançar-me. Só que, tomado novamente de calma, colocou uma cadeira no quintal e ficou sentado, com uma cinta na mão. Isso foi pela manhã. Ao meio dia, eu estava ainda lá. Aliás, nós estávamos na mesma posição. E assim foi pelo dia todo, eu quase morrendo de calor, de fome e de sede. Então, a noite chegou e fiquei com medo. Desci do telhado, meu pai me olhou. E deixou a cinta do lado e me abraçou.

Sempre eu quis ser “dono de mim mesmo”. E desafiei regras, enfrentei leis injustas, insurgi-me contra ordens tirânicas. Mesmo no cotidiano, agi com essa rebeldia que deve ser congênita. No entanto, chegou um momento em minha vida em que um homem se tornou “dono de mim”. Ele me conquistou, fascinou-me por sua doçura, por seu carinho, por sua sabedoria e santidade. Foi D.Aníger Melilo.

Nunca consegui contrariá-lo. Quando ele lia algo mais severo escrito por mim,  telefonava-me com aquela voz suave e terna: “Você exagerou, meu filho. Acalme-se.” Foi ele o instrumento de minha conversão ao cristianismo, nos idos de 1967, mais exatamente no dia 7 de julho daquele ano. D. Aníger me esperava, numa madrugada gélida, na capelinha do Seminário Diocesano. Eu a invadira, tomado de uma repentina e inexplicável fé. Ele me abriu os braços e falou: “Eu sabia que você viria.” Fui. E, enquanto D.Aníger viveu, fiquei. Após sua morte, uma grave orfandade espiritual me fez fraquejar. Mas, pelas mãos de D.Eduardo Koaik, retornei. Agora, para ficar em definitivo.

D.Aníger, pois, foi “dono de mim”. E nunca me senti tão feliz como então. Bom dia.

3 comentários

  1. luisre2014 em 12/03/2014 às 13:29

    você teve a primazia de ter a sabedoria e santidade de duas magnificas pessoas para sua conversão ao cristianismo; após você não teria mais a conversão, estamos pobres do homem santo, semeador de generosidade e de sabedoria.
    forte abraço.

  2. Miguel Angelo Maniero em 12/03/2014 às 17:42

    É Cecílio Piracicaba teve muita sorte com os dois bispos citados, D. Aníger e D. Eduardo, foram verdadeiros pastores, eles compreendiam o coração das pessoas. O atual D. Fernando ainda não conseguiu interagir com o povo piracicabano.

  3. Antonio Carlos em 14/03/2014 às 14:48

    Se fosse com o de agora você provavelmente ficaria mais rebelde ainda.

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