O líder negro acorrentado

NegroAos 74 anos, negro e idoso, José Mariano, presidente da Irmandade de São Benedito, cumpriu o que prometeu para si mesmo, como sacrifício e protesto: acorrentou-se na Praça José Bonifácio, diante da Catedral de Santo Antônio, num simbolismo ainda mais forte. Quando os sinos dobraram, a multidão chorou, compreendendo o sentido do martírio a que o líder negro se propôs.

O protesto – no dia que celebra a libertação dos escravos – teve o sentido de uma reação contra preconceitos ainda sabidamente existentes. Mas a sua maior motivação foi a luta – até agora, não reconhecida pelas lideranças políticas piracicabanas – em defesa de um bem que, na realidade, é patrimônio de toda Piracicaba, não apenas dos negros: o terreno ao entorno da Igreja de São Benedito, espoliado e invadido. Esse menosprezo à reivindicação da Irmandade – que se alonga há décadas – não seria, também, uma manifestação de preconceito racial? É a pergunta que se torna ainda mais inquietante, pois, reivindicando a devolução de seus próprios direitos, a Irmandade tem sido tratada como se pedisse favores para não se dizer que esmolas.

Ora, a Prefeitura e a Câmara de Vereadores têm sido absolutamente solícitas e generosas quando se trata de obras públicas que, nitidamente, favorecem empresas, condomínios, loteamentos, com abundância de pontes e rotatórias nem sempre bem explicadas. Há, cada vez mais, beneficiários de obras públicas, com empreendimentos nos quais, quase sempre, estão os mesmos grupos e pessoas. No entanto, o menosprezo a um patrimônio cultural e histórico – que é a própria Igreja de São Benedito – vai-se revestindo de filigranas jurídico-políticas que dificultam quaisquer soluções.

O comovente gesto de José Mariano – que emocionou a população e que o eleva ao nível dos grandes idealistas desta terra – terá o condão de sensibilizar os homens públicos? Ou será mais uma demonstração de martírio que repercutirá por alguns dias, caindo no esquecimento, esse mesmo esquecimento com que os políticos contam para não serem cobrados e considerados culpados por ação e omissão?

Nenhum sacrifício humano, no entanto, é inútil. José Mariano, com seu gesto simbólico mas doloroso, está deflagrando um movimento de reação que poderá levar a resultados mais amplos do que julgam políticos de ambos os poderes. É um sacrifício que se transforma num grito de união, que congrega pessoas, que alimenta indignações e que fortalece os que ainda acreditam em justiça, em dignidade e em decência. A Irmandade de São Benedito – diante das contradições dos homens públicos, de preferência a poderosos em detrimento dos pequenos – tem todos os motivos para acreditar que, até mesmo em relação a São Benedito, o santo negro, o preconceito em Piracicaba é vigoroso.

O curioso é que os mesmos políticos que, em campanhas anteriores, apareceram de bíblia nas mãos, orando com crentes de tantos credos, não tomaram posições claras e objetivas. O martírio do velho negro acorrentado não será em vão. Mesmo porque, até agora, São Benedito sempre se mostrou leal e fiel a seus devotos. E irado, quando políticos piracicabanos tentaram demolir aquele templo, ainda que trapaceando com seu entorno. Como Piracicaba sabe, a Igreja de São Benedito também mata. José Mariano confiou na misericórdia do santo de sua Irmandade. E tem motivos para isso.

Piracicaba viu o que, talvez, vira apenas nos tempos da escravidão. Que nossos políticos não queiram ser expulsos de suas casas grandes pelo povo da senzala. Com homens de fé e de esperança, ninguém pode. E José Mariano se transforma em símbolo desse movimento que, novamente, tem tudo de redentor. Bom dia.

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