O pão, a cigarra, a formiga

picture (10)O doloroso, para o homem brasileiro, é o trabalho ter-se tornado tudo ao mesmo tempo: bem e mal, bênção e castigo, direito e privilégio. O desrespeito à pessoa humana chegou a tal nível de absurdo kafkeano que um simples emprego recobre-se com auras de milagre. Aquilo que – em países civilizados – seria indigno e injusto, é recebido, no Brasil, como bênção, graça divina.

A maldição do prato de lentilhas tornou-se viva e vívida, as pessoas – repetindo Esaú e Jacó – trocando, por desespero e cansaço, seu direito real por migalhas, a necessidade sobrepondo-se à dignidade. Sonhos e esperanças de famílias inteiras esboroam-se, filhos rasgando, por inúteis, diplomas universitários, em busca de míseros trocados para o pão de cada dia, nem que seja colhendo dejetos de bichinhos de madamas. Se, antes, era surpresa um “engenheiro que se tornou suco” – o universitário que abriu um boteco de sucos – o surpreendente, hoje, é engenheiro ser engenheiro, médico exercer a medicina, professor lecionar.

O trabalho nasce do castigo de Deus à desobediência de Adão: “ganharás o pão com o suor de seu rosto.” As sobras do Éden ficaram registradas pela criação de pintores e escultores, no canto dos compositores. O trabalho, como penitência, tornou-se a única possibilidade de sobrevivência. E, de castigo, tornou-se direito, um inalienável direito humano. Trabalho e dignidade deram-se as mãos, mesmo quando, para manter a sua família, o homem aceitou o trabalho indigno e subumano. Por amor aos seus, o homem dignifica tudo.

Este é um 1º de maio menos triste, pois há expectativas de novos tempos. Mas é, ainda, testemunho de uma era amarga na vida deste país, resultado de décadas de incúria e de desrespeito. O Brasil tornou-se incapaz de garantir, a seus filhos, sequer o direito de ganhar o pão com o suor do rosto. Diante da fome e do desespero, há multidões dispostas a aceitar até o trabalho quase escravo para não roubar e matar. Outros matam e roubam, traficam e corrompem. Um país com governos e políticas que o desrespeitam não pode exigir o amor do povo. Pois não é justo nem honesto amar o desrespeitoso.

Há que se lembrar: o “Dia Internacional do Trabalho” – que os Estados Unidos se negam a comemorar nesta data – nasceu como protesto, comunhão popular, solidariedade, reivindicação. Em 1886 – justamente num 1º de maio –mulheres eram massacradas nas ruas de Chicago, homens espancados, pessoas mortas, em passeatas nas quais reivindicavam condições de trabalho mais dignas. Em 1899, em Paris – sempre na França, mãe das liberdades – instituiu-se a data, em memória dos sacrificados e para honrar o trabalho. Essa memória mobiliza multidões e vitórias e conquistas são celebrados. O Brasil ainda não pode comemorar vitórias, pois há muito a caminhar. E a angústia popular pode estar apenas adormecida.

Na fábula de La Fontaine, a cigarra canta a vida toda, sossegada, uma existência aparentemente ideal, sem lutas e sem trabalho. E a formiga trabalha sem descanso, às vezes até sem saber a razão de tanto trabalho. A história é conhecida: no Inverno, sem alimento e abrigo, a cigarra morre após uma vida de todos os cantares. A formiga sobrevive ao Inverno, mas a história não conta como ou quando morreu. Na fábula, viu-se a síntese do ideal humano de trabalho: cantar como cigarra e trabalhar como formiga. Trabalhar para cantar, cantar para trabalhar.

Desempregados, milhões de brasileiros ainda choram. Não são cigarras, não são formigas. É como se, no Brasil, sequer a maldição de Deus tivesse sido cumprida: há milhões que não conseguem ganhar o pão com o suor do rosto. Bom dia.

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