Pão vivo, noite que goteja

picture (27)Um dos livros que marcaram minha geração é “Pão Vivo”, de Thomas Merton, com prefácio de Alceu Amoroso Lima. Sem grandes esforços, consegue-se, ao lê-lo, entender a impossibilidade de vida sem comunhão. No milagre cultuado pelos cristãos, a humanidade sobrevive pela memória. Um testamento – “fazei isso em memória de mim” – tornou-se núcleo, fundamento de toda uma civilização. Sem memória comum, não há o que compartilhar.

O espantoso é tudo estar entre nós, diante dos olhos, quase ao alcance das mãos. Já há alguns anos – para espanto de alguns, como se fosse exagero meu – insisto e repito-me ao dizer que o rio Piracicaba é nosso Ganges, o nosso Nilo, rio santo e sagrado. Ficar às suas margens, ver as transformações, as mudanças, os cuidados é, pelo menos para mim, confirmação da metáfora também sagrada que me anima: é nossa pia batismal, de um povo. Penso no Nilo, no Ganges. Emociono-me.

Desde as mais antigas culturas, as preces humanas dirigiram-se aos rios. As águas diziam de bem-aventuranças e de rancores lançados pelos deuses. Nas cheias e na fartura, revelava-se a generosidade deles; na estiagem e na fome, era a cólera divina manifestando-se. O Nilo, em especial, era um milagre, o próprio Deus. Correndo ao longo do deserto, vindo não se sabia de onde, suas águas traziam a terra negra, que recolhia a semente do pão. O Nilo era como que os braços de deus trabalhando por seu povo. E, tanto eram, elas, esperadas – as águas revoltas – que havia guarda-rios anunciando a feliz nova: “Vai subir”. Subia, trazendo fertilidade. E, ainda hoje, o Nilo é chamado de “a noite que goteja”.

Fiquei, há poucos dias, debruçado à amurada da rua do Porto e, vendo a cidade agitar-se à sua margem, posso jurar ter ouvido um guarda-rios anunciando a boa nova: “Vai subir”. As águas começam a chegar. E, com elas, retornam as lendas. Pode ser, também, nossa “noite que goteja”. Pois é rio que murmura, que espuma, que tece véus para a noiva e que, por milagroso, não morre: ressuscita a cada chuva. É nosso pão vivo.

Tais imagens, metabolizo-as na inteligência e no coração movido, sei disso, por emoções que se não interrompem. Que, em contrário, aumentam. Numa tarde dessas – conversa de varanda, ouvindo canto de avezinhas – falei a pessoas amigas estar próximo de encerrar minha colheita de memória e de história piracicabanas. O tempo que resta, quero dedicá-lo a escrever esse universo num misto de realidade e de ficção. Mas Fatum e Fata – deuses do destino – parece que mo impedem. Pois, com certeza, são os fados que insistem em trazer-me, cada vez mais, pérolas, jóias, tesouros de Piracicaba – pães vivos mas esquecidos.

Há poucos anos, a generosidade de Nicolau do Marco tornou-me guardião de livros, papéis, documentos, que, por toda a vida, foram recolhidos, preservados pelo saudoso professor Joaquim do Marco, um dos pilares de nossa cultura. Estavam guardados, mas esquecidos. De repente, as águas do rio – repetindo as do Nilo – pareciam trazer bênçãos. E vi-me com pedaços da memória nas mãos, pães vivos de nossa história: fotos antigas, textos de S.Ferraz, um poema de Newton de Mello, um hino da Escola Normal, uma peça infantil de João Chiarini, artigos, livros, um raro estudo sobre Sud Mennucci.

À beira do rio, vindas da “noite que goteja” – “já vai subir”, pareciam anunciar os vigilantes – vozes ancestrais sussurraram-me, no ordenamento também da comunhão piracicabana: “fazei isso em memória de nós.” Guardar a memória, preservá-la. Enquanto o rio existir. É nossa responsabilidade, talvez destino. E bom dia.

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