O pavor do silêncio

Francarlos Reis foi um piracicabano que brilhou na dramaturgia brasileira, no teatro, na televisão, quer como ator, diretor ou produtor. Conhecemo-nos desde crianças e, desde então, – ele querendo ser ator e eu, escritor – eu lhe prometia escrever uma peça teatral apenas para ele.

Pouco antes de sua morte repentina, há cerca de dois anos, comecei, finalmente, a escrevê-la. E a idéia central era o silêncio, a solidão. Na primeira cena, o personagem (ele) entrava no apartamento, um sábado à noite, e ficava arrumando coisas, abrindo janelas, tentando ligar a televisão, procurando alguém com quem conversar ao telefone. A cena durava cinco minutos de absoluto silêncio. Francarlos entusiasmou-se pois antevia o resultado daquele início: ou o público, diante do silêncio, começaria a vaiar, a gritar, a ir-se embora, ou viveria toda a angústia da expectativa e da espera. Francarlos morreu, desisti da peça.

Penso nisso, hoje, por condoer-me de grande parte da humanidade que perdeu, deixou morrer ou apenas teme o tesouro do silêncio. Pois, para a grande maioria, o silêncio é assustador, já que torna incontornável a mais difícil – ainda que necessária e gratificante – situação humana: estar apenas consigo mesmo, falar de si para si. Ou apenas refletir.

Há uma lenda hindu que conta a visita de um jornalista a um dos mais sábios gurus. “Mestre – perguntou o jornalista – qual o segredo da sabedoria?” O mestre nada respondeu. O jornalista insistiu: “qual o segredo da sabedoria?” O mestre continuou calado. E o jornalista perguntou pela terceira vez, sem nada ouvir. Na quarta tentativa, o mestre falou: “Já lhe respondi três vezes. O segredo a sabedoria é o silêncio.”

Uma discussão que se coloca cada vez mais viva tem sido a do uso dos celulares e de outros recursos no cotidiano das pessoas. Com todos os benefícios reconhecidos e as vantagens obtidas, um dos estudiosos mais lúcidos desabafou: “Criamos, finalmente, o inferno na Terra”. Pois ninguém mais tem olhos de ver, ouvidos de ouvir, cabeça de refletir, voz para conversar. Os contatos humanos se rareiam e, se existem, cada qual está, em mãos, com seu brinquedinho de comunicação. É o mundo conectado, no qual as pessoas estão se tornando incapacitadas cada vez mais de desconexão.

O silêncio é um dos presentes mais valiosos que o ser humano recebeu da vida. É no silêncio e dele que a vida nasce, como a semente plantada no solo que, silenciosamente, brota. É em seu último silêncio que o homem morre. A solidão – quando desejada, buscada, tida como opção – é uma conquista inavaliável, uma bênção. E, no entanto, o silêncio apavora, amedronta, aterroriza. O nome disso, para mim, é covardia. Covardia de o homem se ver sozinho consigo mesmo, de estar espiritualmente nu para si próprio. Pensar, hoje, faz mal à saúde. Pois, se o homem voltar a pensar e a refletir, verá as idiotices que têm cometido, os equívocos fatais e não terá outra resposta senão a de que, realmente, está construindo o inferno na Terra. E dizer que isto aqui já se chamou Éden, ao início da criação. Bom dia.

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