Papai Noel de si mesmo

picture (13)Foi lento, seguro e gradual o meu processo de rendição a Natal e a Papai Noel. E não me custa, para manter a tradição natalina, evocar Machado de Assis e a pergunta clássica:”Mudou o Natal, mudei eu?” Pois não creio haja cronista capaz, nestes dias, de ignorar a indagação que, hoje, me parece tola. O velho bruxo perguntou para incomodar, sabendo, ele próprio, que tudo muda, também o Natal e as pessoas. Sempre.

Assumo ter-me, por muitos anos, consumido em angústias natalinas, ora bravo com Jesus, ora aborrecido com Papai Noel. Por outro lado – com mais de meio século de escrevinhações sobre Natal, tantas e tantas – nem mais sei o que escrever a respeito. Nem a favor, nem contra. Já impliquei com Jesus, já impliquei com Papai Noel. Já louvei um e louvei outro. E sofri por ambos. Ideologicamente, nenhum deles – em tempos natalinos – me respondeu às indignações, comprometidos, eles, com presentes e noite feliz: o menino nascendo, festejado com ouro, incenso, mirra; o gorducho entrando por chaminés.

Assim como o Lula faz hoje, eu me preocupava com as criancinhas pobres e me perguntava: por que Jesus e Papai Noel não levam presentes aos coitadinhos? Sem respostas, eu xingava Vaticano e Washington, imaginando noites de Natal com Fidel Castro representando um Papai Noel barbudo e revolucionário, Che Guevara fazendo o papel do Menino Jesus adulto. Eu sabia que, com eles, injustiças e tristezas seriam as mesmas: uns tendo tudo ou quase tudo; outros, nada ou quase nada. Mas imaginei Fidel e Guevara – nos papéis de Papai Noel e de Jesus adulto – com solução comunista: ninguém teria nada. Foi quando apareceu Joãosinho Trinta para atrapalhar: “intelectual é que gosta de miséria: pobre gosta de luxo.” Comecei a entender. Já escrevi sobre isso outras vezes.

Neste Natal, é outra, a dúvida: não sei se deixei de ser intelectual, pois não gosto de miséria, ou se fiquei ainda mais pobre, pois estou doido, doidinho, para viver todos os luxos natalinos: luzes, vitrinas, presentes, champanhas, o bom e o melhor. De gente faminta e infeliz, o Lula que cuide, que eu não prometi “Fome Zero” para ninguém. Pelo contrário: até tentei participar, colaborar, mas não deu certo. Dou-me o direito de viver dias de tucanato, com lantejoulas e chiquê. Lembram-se de quando Fernando Henrique contou ter comido, em Paris, buchada de bode, mas com o nome de “tripes à la Caen”? E tenho certeza de, na intimidade familiar, ele referir-se a Papai Noel como Père Nöel. Ele sabe como é mais gostoso o francês.

Essas delícias pessoais natalinas eu as escrevo para dizer de minha alegria realmente infantil diante de decisões que tomei, minha rendição a Papai Noel. Qualquer psicanalista iniciante haverá de entender o que decidi. Vinguei-me do velho barrigudo e me tornei íntimo dele. Eu o detestava – descobri faz tempo, mas me recusava a admitir – pelo livro que, na infância, lhe pedi e ele não me deu. Era um livro de contos da carochinha, nunca pude esquecê-lo. E tanto não esqueci que, até hoje, sou eu a contá-las, histórias reais e inventadas. Sonhei com aquele livro, o Natal chegou, Papai Noel me traiu.

Vinguei-me, neste Natal, ainda outra vez. Eu é que me presenteio com livros e mais livros, pouco me importa se altos os preços. Já fiz as contas: dou-me o presente de Natal, sou meu próprio Papai Noel, Jesus de mim, vingo-me de todos eles. E para os demais da família, ora bolas, para que existem as lojas de R$1,99? Intelectual é que gosta de miséria. Quero chiquê. E bom dia. (Ilustração: Araken Martins.)

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