Para quê mesmo?

pictureTenho um consolo na eleição de domingo: como idoso, posso “furar a fila”. Tirante essa vantagem, não me vejo cumprindo aquilo que, antes, era “dever e direito cívicos”. E entristeço. Pois fui – desde a adolescência – um brasileiro com profundos e intensos sentimentos cívicos. Por civismo, tornei-me até servente de pedreiro, meia-pá, querendo ajudar a construir Brasília, meus dias de candango.

O primeiro voto, dei-o em 1958. Portanto há exatos 50 anos. Votei em Carvalho Pinto para governador de São Paulo e em deputados então chamados criptocomunistas, também conhecidos como “comunistas enrustidos”. Naquele ano, pelo que sei, o presidente Lula procurava emprego numa tinturaria e também como office-boy. Em 1959, votei no Marechal Lott para presidente da República, seguindo orientação do Partido Comunista na clandestinidade. Lula procurava ajustar-se no Senai e na fábrica de parafusos Marte. Continuei votando, ele se tornou presidente.

Os anos de ditadura serviram para afervorar ideais, a luta pela recuperação de valores e de direitos espezinhados, a esperança de novos dias, da liberdade reconquistada. O nome era esse: esperança. Lembro-me do dia em que iríamos, novamente, eleger um presidente da República. Foi dia de gala, festa de libertação, epifania. A partir daquela eleição – e até recentemente – criei um ritual, como que minha missa cívica. Antes de ir à urnas, eu me banhava, barbeava-me, escolhia roupa sóbria como para um evento social e ouvia o Hino Nacional. Os sons da fantasia triunfal de Gottschalk penetravam-me no peito, na emoção cívica que me estremecia vísceras, as da alma. Eu me sentia um brasileiro. E tinha orgulho disso.

Domingo, irei votar. Mas o sentimento cívico esvaiu-se, esperança desmaiada, a certeza de estar sendo enganado, a inutilidade de uma atitude que – tendo sido sagrada – parece ter-se tornado promíscua. Pois é isso, hoje, o que sinto ao votar: a sensação de promiscuidade. De ser conivente. De cumplicidade com farsas e engodos de um arremedo de democracia. Diante de estruturas políticas em frangalhos – para que sirvo, eu, senão para votar? Estou elegendo quem, para quê? Com meu voto, participo do engodo da mudança e – como no “Leopardo” – muda-se para continuar tudo igual. Voto e preservo o quê, fortaleço o quê – além de interesses de grupos?

Tenho lido argumentos hipócritas, conceituações apenas teóricas a respeito de democracia, da importância dos poderes constitucionais, cujos alicerces foram minados pela corrupção que se tornou endêmica na polícia, na educação, nos negócios públicos e privados. A corrupção está próxima de ser pandêmica. E não é verdade esteja, a solução, no voto, nas eleições livres. Não está. Pois toda estrutura político-partidária do país foi construída para beneficiar grupos. No Brasil, a má fé, a ação entre amigos da classe política – poupem-se as exceções – impede seja, o voto, realmente livre, e se tenha uma representação política minimamente justa e decente.

Não ouvirei o Hino Nacional, a grande fantasia triunfal de Gottschalk, o compositor e pianista estadunidense que amou o Brasil e aqui teve sua paga: morreu de febre amarela. Em mim, o que morre é a crença. Não sei, além do dever, a razão de votar. Meu consolo é que, desta vez, posso “furar fila”. Negaram-me o direito a uma política decente, mas ganhei direitos de idoso, ora vejam. Bom dia.

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