“Politicus domesticus”

picture (66)Há poucos anos, precisei ir, novamente, à Delegacia de Polícia prestar depoimentos como jornalista. Só que, daquela feita, para atender a queixa de uma leitora de Campinas que queria ver-me processado e condenado por, segundo ela, “estimular matança de gatos”. É algo que me persegue. Pois, também há poucos anos, houve matança felina no lugar onde moro e teve quem me olhasse com desconfiança, mesmo sabendo que não mato sequer formigas. Em Campinas, havia o problema de cerca de cinco mil gatos soltos num belíssimo parque da cidade, infernizando a vida dos moradores. Sugeri que se chamasse Mr. Bush para, como faz no Iraque e Afeganistão, soltar umas bombinhas. Bastou para eu ser chamado de gaticida ou felinocida, sei lá.

Houve, assim, tempo em que me aborreci com grupos ativistas, especialmente formado por mulheres, que se dizem protetores de animais, para quem sou inimigo dos bichos. Não é verdade e não me importo mais com muita coisa. Gosto de animais domésticos e domesticados, especialmente um bicho muito especial: o animal humano. É o principal animal da natureza. E é ele que precisa ser priorizado na domesticação. Pois o ser humano é, ainda, o mais importante animal doméstico e não sabemos mais como domá-lo. É isso: domar e domesticar têm quase o mesmo significado.

Ora, volto a insistir: domesticar significa tornar caseiro, doméstico. “Domus” é a casa e, por extensão, a família. E o país, a nação. “Domesticus” refere-se ao que é de casa, ao caseiro, ao familiar. E – com a mesma origem – há o “domo”, de “domare”, o domar, amansar. O entendimento nada tem de filosófico, mas da lógica das palavras: o bicho-homem, para viver no “domus” e tornar-se “domesticus”, precisa ser domesticado, domado. Se o fazemos em relação a cães e gatos, por que deixamos de fazê-lo com as pessoas, essas que são os nossos principais animais domésticos?

Na realidade, civilizar é, de certa forma, domar, amansar, domesticar. Civilizar é o polir, é a polidez da “pólis”, que se fazem com policiamento, policiando, origem também do político. Na civilização, é a lei que domestica. E, nas cadeias, acredita-se possam ser domados e amansados os que não foram domesticados. Nada há de complicado, tudo é mais simples do que imaginamos. Se – nas casas e nas cidades – domesticássemos o bicho-homem como domesticamos o bicho-bicho, haveria, pelo menos, mais urbanidade.

Ora, até aqui, não fiz qualquer referência à educação. Pois não consigo admitir a mínima possibilidade de educar se, antes, a pessoa não estiver domesticada no “domus”, a casa. Sem domesticação não há entendimento. Pesquisa recente revelou que cães domesticados entendem 250 palavras. Não se trata de condicionamento, mas de entendimento. Identificam, a partir de 250 palavras, coisas, situações, no nível de entendimento de uma criança de três anos.

Mas – por falta de domesticação – o humano não entende que lixo é lixo, que silêncio é silêncio, que respeito é respeito. Nem um simples “por favor” ou um “obrigado”. Pois é. Aguarde-se, agora, a campanha política, com a sujeira dos políticos. E, depois, discuta-se quem deve ser domesticado. E bom dia.

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