Quem fala tem voz

picture (24)Quando o Presidente Lula foi eleito pela primeira vez, fui convidado a dar uma palestra a adolescentes de uma escola particular de Piracicaba, famosa por sua diferenciação pedagógica, tradição e seriedade. Tratava-se de meninas e rapazes de famílias bem constituídas, distantes das carências amargas que tanto sofrimentos causam à maioria das famílias brasileiras.

Houve, naquela oportunidade, uma tentativa de choramingas por parte de um menino, garoto esperto e bem cuidado. Eram, por assim dizer, queixazinhas de crianças mimadas, as que – por culpa também de minha geração, assumo minha responsabilidade – tentamos poupar de dificuldades e de lutas. O garoto se queixava do Brasil, ele que freqüentava uma das melhores escolas particulares, de família abonada e com confortos excessivos. O menino não percebera o significado de, no Brasil, um torneiro mecânico ter chegado à Presidência da República.

É o que estou tentando dizer: irritei-me, como irritado continuo e fico quando, após essa espetacular ascensão de Lula à Presidência da República alguém ou alguns usam diferenças e injustiças sociais como pretexto para inércia e falta de luta. Ora, não sou petista e não pertenço ao PT, partido ao qual faço também algumas graves restrições. Mas é um País de possibilidades ímpares e abençoado esse que possibilita a um retirante nordestino, a um torneiro mecânico, a uma pessoa simples do povo, marginalizada e vítima de preconceitos chegar à Presidência da República. País venturoso onde – temos que acreditar – “plantando, tudo dá.”

Aquele garoto entendeu e, de certa forma, foi tocado em seus brios. Nos Estados Unidos, um negro – herdeiro da vergonhosa mancha de preconceitos raciais naquele país – está próximo de chegar à Presidência da República. Um índio foi levado ao poder na Bolívia. Mulheres, discriminadas até recentemente, assumem governos em diversas partes do mundo. Há, pois, um surto de coragem, de confiança, um movimento generoso de convicção na democracia e no Direito, o que impede toda e qualquer forma de tirania, mesmo quando disfarçada em medíocres coronelismos municipais. A corrupção faz parte dessa mediocridade e ela não está mais sendo suportada.

Escrevo essas coisas a propósito da voz do povo. Durante toda a ditadura militar, O DIÁRIO – preciso insistir nisso, como referencial – assumiu a responsabilidade de tornar-se “Voz dos que Não têm Voz”, na grande proposta então feita pelo episcopado brasileiro. Conseguimo-lo. O povo, amordaçado, tinha uma tribuna que falasse por ele, voz de jornalistas que bradavam pela população silenciada. Havia, então, os que naõ tinham voz por força de suas carências, de desconhecimento, até mesmo de ignor~|anciã. E os que tinham voz, mas estavam impedidos de se manifestar. O DIÁRIO fez seu papel, mesmo pagando altíssimo preço, um preço caro demais. Valeu a pena, missão cumprida.

O menino daquela escola entendeu a formidável significação do torneiro mecânico que se tornou presidente, do sertanejo que, quando havia mordaças, ousou ter voz e ter vez. Agora, o problema parece ser outro. O povo tem voz, todos têm voz, os tempos são outros, de liberdade e de direitos assegurados, com veículos novos de comunicação, ainda mais democratizados. E, no entanto, há silêncios espantosos, talvez acovardados.

A mim, me parece estranho, mas já disse Terêncio que “nada do que é humano deve ser estranho ao homem.” E, agora, é uma outra experiência e uma outra responsabilidade: manter um jornal eletrônico que seja, diferentemente do passado, sirva aos que têm voz, pois todos têm a própria voz, livre e responsável para se manifestar. É outra riqueza. E missão e responsabilidade ainda mais fecundas.

É, pois, o sentido da página “Tribuna do Povo” que entregamos a Piracicaba. Um espaço para quem tem voz. Bom proveito. E bom dia.

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