Sabedoria do umbigo

UmbigoEm algumas leituras de Carnaval, li trechos de interessantes de políticos e de pensadores. Lembrei-me de uma jovem intelectual que, nos meios acadêmicos, defendia a sua visão de mundo e de pessoas. Ela se dizia, e ainda se diz, infiel a tudo. E insiste: “Sou fiel apenas a mim mesma.” Arrisco-me a pensar seja um resumo grotesco das sombras de um tempo em decomposição. O mundo das pessoas está nelas mesmas. Portanto, solidariedade, compaixão, comunidade, família, sociedade e até mesmo o amor passaram a ser valores dispensáveis. Esse individualismo equivocado e mórbido tem outros nomes: egoísmo, egotismo, egolatria. Mundo de egoístas, de egotistas e de ególatras. Suicida, portanto.

Cega-se, quem se diz fiel apenas a si mesmo. Pois os valores humanos e pessoais são mutáveis, mutantes. Não há o absoluto na carne e nos sentimentos humanos. O absoluto está no intangível, que é alvo da fé. Os “fiéis a si mesmos”, fazendo-se imutáveis, pretendem um absoluto personalista, fechado, circunscrito ao próprio egoísmo. Venho insistindo que, Talvez, melhor fosse se passássemos a substituir a palavra fidelidade por lealdade, mais fácil de ser entendida e mais humana para ser vivida. Pois há excesso de fidelidades no mundo, às vezes antagônicas: fiéis à Igreja e fiéis à ciência, há momentos em que uma das fidelidades precisa ser rompida; fiéis a um partido e fiéis à família, eis que se pode ser colocado diante de uma escolha; fiéis à pessoa amada, mais eis que o amor morre.

Fidelidade deriva de fé. E fé, quase sempre, é irracional, escapa à razão, a argumentos racionais. É complicado, mesmo porque há a fé em sentido mais banal, fé de ofício, fé simplória. Ter apenas fé em si mesmo, portanto, é muito pouco para uma pessoa se tornar respeitável diante dos outros. Alguém assim passa a ser menos confiável. É o que tem acontecido com ideologias e partidos políticos. Pois, de repente, a fé no partido, a fé na ideia, a fé na revolução, a fé na transformação vão impedindo que se tenham noções mais claras e concretas do que seja o Poder. Um partido de oposição pode dar-se ao direito e ao luxo de manter essa fé absoluta em idéias e, até mesmo, em desejos. No governo, a poesia se transforma em prosa. A fé é chamada à ação e, em política, a ação é pragmática.

Confiar em pessoas é mais humano do que depositar fé nelas. Pois a nossa fé pode roubar a humanidade do outro. E ter fé em si mesmo é se dar ares de uma infalibilidade tão frágil que beira o ridículo. No fundo, porém, egoístas e ególatras são pessoas incapazes de conviver, de repartir, de dividir. Exigem o que não dão. E estão espalhados por aí, em governos, em cátedras, em altos cargos executivos, também na vida amorosa: o resultado é o que lhes interessa, desde que seja o resultado proposto por eles mesmos. Para isso, vale tudo, é preciso tirar vantagem sempre. O lucro está presente, até mesmo em ações epidermicamente generosas. O lema é: vencer ou vencer. Mas a vida são perdas, viver é perder.

Não questionar-se, não duvidar de si mesmo, manter-se “fiel a apenas a si mesmo” é permanecer num mundo idealizado mas nem sempre real. Acreditar em princípios e manter-se neles é outra coisa. E tudo ficaria mais fácil se substituíssemos a rigidez da fidelidade pela humaníssima lealdade. Poder-se-ia brigar, discutir, divergir e ser leal; até mesmo permanecer egoísta, mas ser leal. E nós, diferentes e divergindo, mas leais uns para com os outros. Se pessoas fiéis nem sempre raciocinam, as leais sabem quando se tornam desleais. E, por isso, conseguem desculpar-se e também desculpam. Os fiéis a si mesmos, no entanto, não sabem nada a não ser do próprio umbigo. Bom dia.

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