Saudade do não conhecido

picture (67)Há poucos dias, um amigo e leitor – universitário, intelectual renomado – me advertiu, como se eu cometesse falta grave: “Há traços de saudosismo em seus escritos.” Ora, mas como não haver saudade? Pois, com outros amigos, tenho conversado a respeito da celebração de minhas cerimônias de adeus, de adeuses. E isso não significa desistir, despedidas finais. Pelo contrário, são recomeços. Os mundos pessoais morrem para permitir comecem outros. E eu nada mais tenho a ver com esse universo falso e enganoso baseado na Lei de Gerson – “é preciso levar vantagem em tudo”. Morri antes dele, que, agora, começa a desaparecer. Preparo-me para o que chega. E estou saudando-o. Pois este, o novo, eu já o conheço: é apenas o reencontro do que se perdeu no estouro da boiada humana.

A vida é um rosário de saudade. E só se é saudoso daquilo que foi bom. Nos 1960, já escrevendo crônicas diárias, lembro-me de, vendo ruir os “anos dourados”, sentir saudade dos 1950. Antes de terminar a primeira década do século 21, já tenho saudade do século passado. A alma humana, penso eu, é tecida por experiências que marcam em definitivo, de alegria ou de amargura. As alegres deixam saudade.

Há algum tempo, uma leitora me contou da saudade que o filho, de apenas 14 anos, sentia: dos brinquedos mais simples, de um tênis que não mais se fabricava. E convenci-me da sabedoria de um conceito de saudade que me parece definitivo: “Saudade é a vontade de outra vez.” Ora, ninguém tem vontade de sofrimentos outra vez. Vive-se de alegrias que enriqueceram a vida. Por isso, saudade tem muito de esperança, que não é esse esperar inerte, inerme, passivo. Esperança é transformar em concreto e verdadeiro aquilo que se conheceu como belo e como bom.

Quando digo de cerimônias de adeuses, estou dizendo de opção definitiva pelo belo e pelo bom, de rompimento final com tolices e equívocos estéreis, de negação a valores falsos e, por isso mesmo, pela retomada e fortalecimento de princípios. . Os jovem clamam por isso. Eles já são pessoas com saudade, perplexas e assustadas com o descartável, com o passageiro, com o instável. Neles, há saudade da percepção inicial de que estar no mundo é participar do mistério da criação.

Alimentar a saudade é cultivar a memória. Sem memória não há como contar a história da vida humana às novas gerações. Sem saudade, sem memória, as novas e futuras gerações não saberão distinguir o que vale a pena viver daquilo que é indigno de ser vivido. O mundo foi soterrado pela perda da memória, pela falta de saudade. E, assim, criamos gerações de infelizes que, não sabendo de onde vinham e dos tesouros que possuíam, não tinham para onde ir. Aturdidos e mergulhados em vazios, não tiveram opções. .

Pessoa sem saudade é pessoa sem referencial. Da mesma forma, pessoas que desprezam a memória são as medrosas de suas próprias lembranças. A maioria dos políticos menospreza a memória, pela simples razão de sua história pessoal não merecer ser lembrada. Saudade é bem-aventurança. Antes de ser retorno, é avanço. De e por saudade, confesso, mudei meus rumos, indo em busca de outros. A saudade me salvou de escombros, não me deixou soterrado.

Meu netinho diz ter saudade de mim. E eu estou morrendo de saudade de meu avô. Que não conheci. Bom dia.

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