Sem tempo de perder tempo

Este texto foi publicado em 5 de agosto de 1979 em O Diário. Foi selecionado para o Foi selecionado para o livro “Bom Dia- Crônicas do Autoexílio e da Prisão”, lançado em 2014.

Quando se misturam, frio e chuva parecem enregelar a própria alma. E, se há multidão atropelando-se e espremendo-se nas ruas, a sensação que surge é pânico, quase de desespero. Gente que corre, que treme, que busca abrigo, que se agita, que se encolhe, que geme, que se apavora, fugindo ao frio que corta, ao vento que bate, à chuva que machuca.

Foi assim, num anoitecer, que um amigo, aí de Piracicaba, se encontrou comigo. No meio da multidão, que parecia querer atropelar-nos. Percebi, nele, a sensação também de quase pânico. Ou melhor, de horror. De quem detesta o que está vivendo, sentindo ou presenciando. A minha calma parecia perturbá-lo, como se não fosse natural manter a naturalidade em meio ao caos. “Como é possível gostar dessa loucura?”- perguntou-me. Os faróis dos automóveis e as luzes incandescentes coloriam as poças d’água nas ruas e sarjetas. Respondi, perguntando-lhes: “Se, agora, não estivéssemos aqui, você estaria vendo novela de tevê, não?” Ele e, então, pareceu comprender o porquê de minha naturalidade.

Pois não se trata de gostar de uma pretensa loucura, se se pode chamar de loucura ao conflito homem-tempo-espaço. Trata-se sim, de participar da vida. De observá-la por inteiro, no que têm de bom e de desagradável, de alegre e de aborrecido, experiências enriquecedoras. Não deixar que os minutos nos escapem, que a monotonia nos embolore e roube o prazer do movimento e da ação, síntese da vida. Uma pesquisa revelou, recentemente, que o homem brasileiro assiste, em média, a três horas de televisão por dia. Isso significa que, a cada oito dias, o brasileiro perde um diante do televisor. Quase quatro dias por mês! Quase 50 dias por ano! Mil dias em 20 anos! Ou seja, quase três anos, em 20, diante do televisor! Ora, é a isso que se chama viver?

Nem as flores permanecem estáticas por mais de alguns fugidios dias. A grande loucura humana está, pois, em não perceber o tempo passar, em se dar ao luxo de perder e desperdiçar minutos, horas e dias. O instante que se foi não volta mais. O que virá não sabemos se nos encontrará vivos. Um minuto da vida pode resumr a própria vida. E, no entanto, esbanjamos o tempo como se fôssemos o seu senhor, como se controlá-lo e dominá-lo.

Eu, não. Descobri, a tempo, que o tempo não me dá tempo de esbanjar tempo. Mas dirão os mais simplistas — a agitação, a correria e o descompasso conduzem ao estresse e isso diminui a vida, questão de interpretação, penso eu. Pois prefiro morrer com 40 anos, mas vivendo plena, intensa e dignamente cada minuto do que morrer com 80 e descobrir, no último suspiro, que fui um vegetal. Ou que, conforme já advertiu o poeta, passei pelo mundo em branca nuvem.

Cada homem há que ter, dentro de si, a sensação de estar sendo útil, de estar vivo. Ninguém é útil ou pode sentir-se vivo postando-se, três horas por dia, diante de um aparelho de televisão. Preferi o suor do povo nas ruas. Ouvir suas risadas e rir com ele. E me sinto vivo. Bom dia.

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