Ser ou não ‘housers’

Num certo período começava-se a questionar quem eram os “housers”, aqueles que optaram por ficar em suas próprias casas, levando o mundo para dentro delas ao invés de irem ao mundo.

“Housers” seriam os que equipam suas casas com todos os artefatos e comodidades, de forma que não precisassem sair, aquela parafernália eletrônica que permitia todo o conforto, tornando cada vez mais distante a necessidade de ir-se em busca do que estava lá fora. Sei lá eu o que está por trás disso, digam-no os tais dos cientistas sociais ou os psicólogos.

Certa vez participei de um debate onde quiseram saber se eu era um dos tais “housers”. De uma certa forma, sou e não sou. Sou um “houser” porque escolhi o meu próprio mundo que, na verdade, nada tem de parafernálico, mesmo porque estou entre aqueles que não se deixaram hipnotizar pelos recursos fantásticos da tecnologia, ainda que os admire muito. Tenho muito do homem do carroção-de-boi, acho que tenho medo das máquinas, pois nunca me atrai por nenhum delas, com seus botões e mistérios. Sou um “houser” na minha busca do silêncio, de meu canto de refletir e de meditar, de meu tempo de escrever, com pessoas que amo e que convivem comigo e outras que estão próximas, os meus livros, os meus discos, os meus objetos de arte, as plantas, os jardins, o silêncio, as noites de convívio agradável e frutuoso com a solidão. É uma escolha, por dentro de mim. E, no entanto, não sou “houser”, no sentido que se dá ao termo, pois gosto de sair, de ir ao encontro daquilo que, queiramos ou não, está no mundo e não poderá jamais estar em nossa própria casa: o teatro, a mesa-de-bar, uma exposição de arte, o convívio com algumas pessoas na intimidade de um outro espaço, um passeio anônimo pela cidade.

O que há de mais terapêutica e pacificador do que um bom bate-papo numa mesa de bar? Não se trata de ir para comer ou para beber, ou para fazer as duas coisas. Mas estar com a pessoa que lhe faz bem, a companheira ou amigos, deixando que a alma fale, as almas falando – que sacrário mais adequado que uma mesa de bar?

Não se trata de festas, de grandes reuniões, comemorações, de mesas lotadas de pessoas, que isso aborrece e a nada conduz. É o cara-a-cara, o “tête-a-tête”, almas desnudas. Mas isso só entende quem faz.

De qualquer maneia, acho que, de uma certa forma ou por um aspecto, entendo essa moda dos “housers”. Há certa marginalização das pessoas, justamente pela maneira como tem sido, elas, massificadas. Eu, de minha parte, sinto-me, por exemplo, completamente marginalizado nas raras, raríssimas reuniões sociais de que, sempre por alguma obrigação, tenho que participar. Não sei mais conversar, pois as pessoas quase que somente conversam sobre novelas. E que sei lá eu sobre novela de televisão? Fico mudo, ouvindo. Espantado. Marx diria: “novela, ópio do povo”. E bom dia.

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