Sugestões impertinentes

picture (82)Ora, se é vivendo que se aprende, há que se perceber alguns sinais. E avisos e indícios. Que criatura não percebe, com a idade, haver coisas que fazem mal, outras que fazem bem? Que velhinho não sabe, por exemplo, que faz mal comer cinco mangas verdes com sal e beber duas cervejas antes de dormir? Faz mal praticar exercícios muito fortes, emocionais e físicos, após, digamos, uma feijoada. Tem gente que já morreu na cama depois de uma feijoada – quem duvida? Outras há, no entanto, que fazem bem: cafuné, agradinho no pescoço, tomar gengibirra depois de polenta com frango. A fábrica do Orlando ainda garante: “gengibirra é boa pra arrotá”.

Aprende-se, pois, com a idade. Por exemplo: a vida é luta renhida, viver é lutar; viver é aprender; do mundo nada se leva a não ser a vida que se leva; uma só andorinha não faz Verão; mais vale um pássaro na mão do que dois voando; escreveu, não leu, pau comeu; Terezinha de Jesus, de uma queda foi ao chão; pau que nasce torto morre torto; nunca diga dessa água não bebo – coisas que enciclopédias e escolas não ensinam. Mas tem fontes primárias parecidas: boca de político e bumbum de caminhão. Também, em resmungo de avós.

Coisas há, porém, que seria preferível não aprender. E nem saber. Mas que se aprendem apesar da tristeza que causam. Deve ser o castigo ao macho da espécie: não adianta querer. Pois aquela coisa heróica de “querer é poder” não vai, em certas circunstâncias, além do simples querer, de vontade, talvez de esperança. Até a criançada – em sua crueldade ancestral – ri-se de homem paralisado diante de certos fascínios: “ficou com medo, lambeu o dedo.” Fazer o quê?

A musiquinha de Carnaval é mais sábia: “quem pode pode”. E quem não pode se sacode. Homem vivido vai devagar com o andor. Sem muita sede ao pote. Se quer e não consegue fazer, tenta fazer o que pode. É destino. Antes, até o impossível acontecia. Depois, fazer o apenas possível é quase uma bênção. O mínimo possível vira festa de arromba. Pelo menos em teoria, aprende-se que, devagar, se vai ao longe. Diferente, portanto, do que apregoava o Adhemar: “fé em Deus e pé na tábua”: Há momentos em que nem fé resolve e meter o pé na tábua piora a situação. Portanto, é verdade: com a vida, se aprende. O problema é que, então, já não serve para mais nada. .

Essa parece uma conversa hermética, mas não é. Idoso entende. Tudo conspira contra o pobre diabo: o mundo, a família, a moçada. No meu caso – na minha teoria conspiratória – tenho certeza de algumas organizações dos EUA estarem metendo o bedelho em minha vida, querendo bagunçá-la. . Um desrespeito. E humilhação. Toda manhã, abro o computador, lá me chegam propostas, provocando-me, tentando humilhar, desmoralizar. Oferecem-me isso e aquilo, umas pílulas mágicas, também disso e daquilo, Viagra de cá, Cialis pra lá, um tal de Regallis, o escambal. E, não bastasse, tenho certeza de que promovem sessões de tortura, pois querem aumentar não sei que coisa, esticar não sei qual outra, o diabo a quatro e o raio que as parta.

Após certa idade, há coisas que, insinuando-se logo pela manhã, deprimem. E o estatuto do idoso não prevê proteção especial contra tais provocações e sugestões impertinente. Vejo os e-mails, fico com taquicardia: o que essa gente sabem ou quer de mim? Quem lhes falou o quê? Devem estar a mando de alguns caciques políticos cá de Piracicaba, tenho quase certeza. Bom dia.

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