Um inesquecível “Dia de Tiradentes”

Certa vez, uma jovem repórter convidou-me a discorrer sobre as festividades do “Dia de Tiradentes”. Quase lhe perguntei: “quem foi ele mesmo?” Desisti, porém, da brincadeira de mau gosto, do humor negro. E apenas desculpei-me, esquivei-me. Pois nada saberia comentar, diante de orgulhos e brios cívicos desaparecidos.

Desde o “Brasil, ame-o ou deixe-o” do governo Médici – é como o entendo – o falso ufanismo promovido pelas lideranças militares como que baniu o verdadeiro civismo da alma coletiva brasileira. Foi matricídio, parricídio. Desestimular o amor à pátria – o respeito à bandeira e ao hino nacionais, às raízes – corresponde a pregar o desamor aos pais, à família. E não há argumento – mesmo os mais falsos e marcados por vernizes ideológicos – que justifique o desprezo aos valores nacionais. Nações verdadeiramente civilizadas – falemos apenas de França e Estados Unidos – dão testemunhos permanentes de civismo. As comemorações da Independência dos Estados Unidos e da Revolução Francesa emocionam pela espontaneidade e fervor verdadeiramente religioso daqueles povos.

No Brasil, houve essa febre cívica, herança que minha geração recebeu do nacionalismo de Getúlio Vargas, o Getúlio banalizado desde que os tucanos bateram asas em direção ao deus mercado. Civismo é semente que se planta para ficar. Qualquer criança sabia cantar emocionadamente o Hino Nacional, nem que não entendesse as letras. E com a postura de quem o levava no coração. Na França, volto a lembrar, Charles De Gaulle – quando ouvia a “Marselhesa” – voltava os olhos para sua mulher, Yvonne, e dizia: “Querida, a nossa música…” Os socialistas ainda hoje comovem-se e arrepiam-se ao som da “Internacional”.

Tal responsabilidade cívica era tão séria que, muitas vezes, chegava ao paroxismo. É-me inesquecível um “Dia de Tiradentes” de minha infância, literalmente marcado a sangue. À véspera de feriados, em fins-de-semana, eu, quase sempre, ia ao sítio dos pais de meu amigo inesquecível, Guto, os Dácio e Nenê Saouza Campos. Éramos, Guto e eu, como irmãos de sangue, saudade que não me abandona. Ele, eu e outros poucos amigos não nos separávamos, brincando de caubóis, nadando em rio e lagoa, embrenhando-nos nas matas, saltando de árvore em árvore agarrados em cipós, aquela “aurora de nossa vida”.

Às vésperas daquele “21 de Abril” – nos meus distantes 10 anos de idade – ainda no sítio, iríamos retornar à cidade para o desfile que o Colégio Dom Bosco promovia em todas as datas cívicas, até mesmo religiosas, o nosso batalhão percorrendo as ruas, as fanfarras alegrando a cidade. Minha responsabilidade seria a de carregar a bandeira nacional, orgulho sem fim. Mas, pouco antes de retornarmos à cidade, brincando de caçar, pisei numa armadilha feita por caçadores de verdade. Os dentes da arma atravessaram-me a perna, o sangue jorrou, fui levado à Santa Casa às pressas.

Acabara-se, para mim, a participação no desfile de tanto garbo, minha perda. Mas, para os padres salesianos, eu teria que sofrer ainda mais. Pois, mesmo com atestado médico e vendo a perna enfaixada, o padre-conselheiro, frio e cruel, determinou: “Está suspenso por três dias.” E justificou sua decisão: “Se o aluno sabia que teria que desfilar, precisaria preparar-se para isso. Ele foi imprevidente.”

Fiquei à janela de minha casa vendo a banda passar. E com dor na alma, por não contribuir, com meu sangue, para honrar a liberdade pela qual Tiradentes dera a vida. Por isso, talvez, eu não saiba falar do “Dia de Tiradentes” ainda hoje. Bom dia.

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