Utopia ou Necrópolis?

picturePrimeiro, era a caverna, um buraco no chão. Perto de seu esconderijo, o homem viu o de outra família, o vizinho. Depois, ao longo dos milênios, lentamente, vieram a pequena povoação, o santuário, a aldeia. A cruz e o sino ergueram-se como símbolos de comunidades, cercadas por muros, protegidas dos inimigos. E, então, as cidades começaram a tomar forma. Das pólis gregas a outros modelos, lugares para viver, amar, morrer.

Ao se falar em aldeia global, falou-se de uma mudança radical na maneira de viver: antes, a cidade era um mundo; agora, o mundo passou a ser como que uma cidade. Com uma diferença brutal, no entanto: lugar de crueldade, de disputas, de convivências nervosas, a barbárie civilizada. Cidades e selvas reaproximaram-se. Mas o sonho de cidade continua vivo, ainda que seus habitantes não saibam definir o que desejam, como erigi-las.

A Utopia, de Thomaz Morus, é um sonho adormecido, o lugar nenhum idealizado para se tornar real: com cerca de seis mil famílias, seus quarteirões tão bem tratados que os moradores disputavam para saber qual dos jardins era o mais belo; famílias revezando-se entre a vida urbana e a rural, para ninguém se esquecer de como cuidar da terra, de como plantar, transmitindo a herança de sabedoria aos mais jovens. A Utopia se contrapôs à Necrópolis, cidade dos mortos, quase que um novo símbolo da cidade moderna caótica: lugares muito mais de morrer do que de viver. .

No entanto, as grandes cidades podem ser um centro de maravilhas da criação humana, como que um museu dessas experiências e dessas biografias. No passado, eram os museus, as catedrais, as universidades, os mosteiros, como repositório da vivência do ser humano através da história. Hoje, são as cidades, que deveriam ser mais humanas e ricas quanto mais plurais elas forem. No entanto, sem alma, tornam-se presídios, depósitos de gente desesperançada e sem destino, cárceres e infernos.

Não há cidade sem solidariedade, sem valores unificadores de sua gente. Não há cidades sem o sagrado, eis a palavra-núcleo, o segredo. As cidades têm identidade. Quando a perdem, deixam de ser as cidades que eram para se transformar em nada, em labirintos, em aglomerados caóticos. Cidades são como corpos humanos que se tornam harmoniosos por seu crescimento progressivo, adequado, proporcional. Inchaço não é crescimento. O inchaço transforma cidades em invenção de um dr.Frankenstein qualquer, grandes mas disformes. .

A cidade moderna é uma construção que exige o esforço permanente de homens sábios, capazes de compreender e de sentir que o sagrado do ser humano sobrevive onde quer que ele esteja. O maior dom e o maior bem de uma cidade são a sua gente. A cidade moderna é o desafio de ser a integração dos valores da aldeia, do santuário, da universidade, da cidadela, da oficina, do mercado. Dê-se a isso o nome de Utopia, sonho ou desejo ardente. Mas a cidade moderna apenas sobreviverá se retomar os valores da cidade antiga, da primeira cidade, lá dos confins da história: os valores dos grupos primários, da família e da vizinhança, onde prevaleça o mais fundamental dos sentimentos, o do respeito. Pela vida e pelo vizinho. É o sagrado da cidade humana. Desde o amanhecer dos tempos.

Quando não se busca a Utopia, encontra-se a Necrópolis. Penso nisso diante dos aplausos desvairados à chegada de indústrias sem estrutura prévia, com apetites insaciáveis e sem cuidados com nossa história e nossa gente. Bom dia.

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