Voz do povo

Voz do povoQuando Pelé, há alguns anos, falou que o povo não sabe votar houve quem o aplaudisse e outros que o recriminaram. Afinal de contas, pergunta-se ainda hoje, quem sabe votar, quem vota porquê e para quê? Um grande empresário não vota e nem apoia políticos e candidatos que lhes contrariem ou venham a contrariar-lhes interesses. Por essa razão, aliás, soou como verdadeiramente cômica a posição do empresário Paulo Skaf, um dos líderes do capitalismo nacional, declarar-se socialista, por mais difuso que isso possa lhe significar ou representar.

As eleições que se encerraram, levando a disputa presidencial ao segundo turno, são mais uma formidável lição do povo brasileiro para os que duvidam de seu discernimento, de suas intuições e, até mesmo, de suas formas de protesto. Ora, o povo vota em quem – conforme ocorre com o empresário – melhor lhes atenda os interesses e as expectativas. O voto ideológico e partidário acabam sendo, ao final, votos de grupos e classes mais afinados com dogmatismos, com filosofias, com teorias. Isso já aconteceu, no passado, com o PT. E isso começa a acontecer com o PV de Marina Silva, que conseguiu – com a sua honestidade de missionária ideóloga, sim – arrebanhar votos que determinaram o segundo turno, o que foi outra belíssima lição para os que transformaram eleições em disputas de marketing. Maria Silva, insistindo em que prefere o debate ao embate, acabou provocando o que mais faltou neste primeiro tempo eleitoral, que foi o embate por idéias, por programas, por propostas. E Marina Silva, ao contrário do que muitos podem imaginar, foi ao encontro do que o Presidente Lula queria e propôs desde o início: o embate entre dois estilos de governo, o seu e o de FHC; a discussão de duas formas de se ver o Brasil. E isso não houve no primeiro turno, como se os candidatos fossem objetos colocados na vitrina por seus produtores de marketing.

Agora, aí está a grande oportunidade para se começar a avaliar o que o Brasil pretende para si mesmo, quais os interesses que estão em jogo, quais as linhas mestras atrás das quais o povo está em busca. A fantástica votação de Tiririca e outras figuras politicamente inexpressivas não deveria, penso eu, ser entendida apenas como brincadeiras de mau gosto, comportamento menos cívico de parte do eleitorado. Deveria, sim, ser entendida como um recado aos políticos que, votando em Tiririca, mostrou que, realmente, com ele, pior não fica.

O povo falou e, em meu entender, falou com clareza e discernimento. O Brasil está dividido, não há mais como duvidar ou ignorar isso. Há uma imensa população emergente que começa a criar novas classes sociais e há uma aristocracia decadente que ainda se apega a privilégios patrimonialistas. O segundo turno é a oportunidade para, finalmente, revelar-se quem é quem, quais caminhos o povo quer, que definições procura e quais os interesses que o movem. Será – podemos aguardar – uma campanha árdua e com perspectiva de ultrapassar os limites da civilidade, perigo que pode aumentar se os meios de comunicação não tiverem consciência de que há um barril de pólvora à espera apenas de quem acenda um estopim para fazê-lo explodir. Bom dia.

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