Ambulantes, caridade, malandragem.

Das muitas questão nunca resolvidas, confesso haver duas que me confundem: esmolas e ambulantes. Na verdade, cada vez entristeço-me mais com o que vejo, percebo, ouço, na impressão de que, com todas as mudanças do mundo, há coisas que nunca mudam. Pelo contrário: lembro-me de problemas que, em meu tempo de criança no banco escolar, se discutiam e que angustiavam. Fome, miséria, subdesenvolvimento, injustiça social, secas no Nordeste, migrações internas…E, ao mesmo tempo que novas tecnologias tornaram o mundo mais acessível, problemas há que persistem, que resistem. E que aumentam.

Afinal de contas, o povo deve ou não dar esmolas a quem precisa? Se deve, quem precisa? Se não deve, qual a importância de saber que há necessitados? Pois houve tempo em que a própria Igreja Católica, em Piracicaba, aconselhava a população: “não dê esmolas, ajude as entidades assistenciais.” Depois, mudou: “dê esmolas, é ato de caridade cristã.” E se o esmoler for malandro? E se houver, como tem havido, uma indústria de esmolas? Lembro-me de que, para apaziguar-me na consciência, tomei uma decisão: carregar, no carro, um fardo de biscoitos. Nas esquinas, conforme a cara da criança, eu dava um saquinho de biscoitos. Minha consciência, pois, ficava em paz, nessa paz dos que não sabem o que fazer: malandro ou necessitado, um pacotinho de biscoitos não faria mal. Nem bem. Até que, um dia, um garoto me fez desistir: ele me atirou, de volta e na cara, o saco de biscoitos, xingando-me. Queria apenas dinheiro.

E os ambulantes? Já vi um engenheiro formado, desempregado, pedindo desculpas por vender canetas nas esquinas; outro, por vender balas. Mas já vi malandros espertíssimos fazendo parte de esquemas espetaculares de faturamento, alguns deles conhecidos meus desde quando eram menores e, agora, adultos. Um deles, já escrevi sobre isso, morava em São João da Boa Vista, vinha a Piracicaba vender coisas, resolveu ficar por aqui mesmo. Comprou um terreninho, estava tentando construir sua casa. Ele vendia balas para um atacadista que lhe dava comissão. Sem impostos.

Quando, pois, ouço falar em caridade para com ambulantes e para com os aparentemente necessitados, logo me vem, associada, a palavra justiça. E é de Santo Agostinho, doutor da Igreja, a observação que vale como um modelo universal de comportamento: a caridade tem que ser justa; a justiça tem que ser caridosa. Ora, se se pensar apenas em caridade para com comércio de malandragem, está-se cometendo terrível injustiça contra o comércio honesto, batalhador, que gera empregos e que paga impostos. E daí?

Somos um povo cada vez mais com menos respostas. Por culpa própria.

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