Conservadores e conservantistas.

Não deve ter havido, talvez, outra época em que as palavras tivessem tão pouco importância quanto a seu significado verdadeiro. Fala-se disso como se fosse aquilo. E daquilo, como se fosse disso. Trocam-se significados, trocam-se significações. De repente, bom e justo passaram a ser palavras que designam tolos e ultrapassados. E espertos e competentes, os que, a qualquer preço ou a qualquer custo, alcançam alguma forma de poder, pouco importando princípios, valores, moralidade e legalidade.

Palavras como conservador, conservadorismo, tradição, moral parecem usadas, propositalmente, para desmoralizar e desqualificar os que incomodam. Veja-se o que uma certa intelectualidade, em todo o mundo, fez e pretende fazer com o Papa Bento XVI que chegou ao Brasil. Ora, trata-se de uma das mais fecundas e brilhantes inteligências do Cristianismo, um intelectual e artista de sensibilidade profunda, teólogo e filósofo dos mais brilhantes em todo o mundo. E, no entanto, dele, fala-se com absoluta falta de cerimônia e sem qualquer preocupação com o significado das palavras: “um conservador.”

O que pretendem dizer? Quem não é conservador se transforma, rapidamente, num irresponsável. Tudo de bom e de fundamental na vida há que ser conservado, desde simples questões do cotidiano. Está na embalagem dos remédios: “conserve em ambiente sem umidade.” E nos alimentos: “conserve na geladeira”. E nas latinhas até de ervilhas: “conserve em lugar apropriado.” Conservar o que deve e precisa ser conservado é, acima de tudo, uma responsabilidade coletiva. O significado de tradição é complementar a esse entendimento: tradição é entrega, transmissão, herança. Ora, se há uma herança a ser transmitida, ela tem que ser conservada. Em cada novo contexto, a herança será adequada. Mas nada sobreviverá se, antes da entrega, não tiver sido respeitada, alimentada, adubada pelos conservadores, os que conservam. Conservar é preservar o fundamental, essa que é a grande luta dos ambientalistas na preservação da natureza. Qual, pois, a dificuldade em entender a necessidade de preservar valores humanos que marcam a vida humana, sociedades, nações, continentes, a civilização?

Conservantismo é outra coisa. Conservantistas são aqueles que se tornam avessos e contrários a qualquer reforma, que impedem a marcha da história, que bloqueiam idéias que os contrariem ou que possam ameaçar o “status quo”. Conservadores preservam o fundamental; conservantistas mantém situações até mesmo carunchadas de ranços e de tolices. Ora, nem tudo que é novo é bom. E nem tudo que é antigo é melhor. O desafio do homem, na sua caminhada história, está em saber preservar o que precisa ser preservado, conservando-o íntegro, tendo a coragem de mudar o que precisa ser mudado. Princípios há que não se alteram ao longo do tempo e do espaço. Valores podem mudar. O problema maior é, nos dias de hoje, que valores e preços confundiram-se, como se tudo tivesse preço, mesmo o que não tem valor. Princípios são valores que não têm preço.

Conservar o amor, conservar a família unida, conservar a honradez pessoal e familiar, conservar a paz social, conservar a justiça verdadeira – esses são vícios de conservadores?

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