Espertos votando em espertos?

Há alguns anos, uma empresa – especializada em novos detectores de mentiras, para uso particular – analisou os discursos políticos na televisão. E concluiu pela grande probabilidade de todos os candidatos estarem mentindo. A revelação pareceu novidade. Mas não era, nunca foi. Pois uma das definições de política é justamente a de ser “a arte da dissimulação”. Quem dissimula mente de alguma forma. É como o palhaço do circo, o ator no palco: dissimulam e cumprem seu papel. Esperar do político a revelação da verdadeira face é tentar fazer, da política, instrumento de santificação. Estados beatíficos são para santos. Políticos são homens práticos em busca de resultados. De certa forma, são comerciantes. Vendem ilusões em troca de votos. Como o vendedor que anuncia maravilhas de um produto apenas banal. Comerciantes e políticos têm muito em comum. Voto e lucro são valores semelhantes, quase iguais.

Ora, se espanto houver, deve ser diante de pessoas estranhando ou fingindo surpresas com o que acontece na política brasileira. Os discursos de jornais e revistas e de analistas e também do povo fazem-se, quase todos eles, numa tonalidade em que não se distingue inocência de hipocrisia. Há um estranho espanto, por exemplo, ao se ver, ainda como candidatos, figuras que atravessaram décadas sob suspeita. Há, nos partidos políticos, uma forma de coronelismo que desafia o tempo e o espaço. Quando, por exemplo, se vê Orestes Quércia de volta à cena política, pleiteando o governo de São Paulo, é impossível deixar de sentir um cansaço quase definitivo. Seus áulicos, na tevê, dizem tratar-se do “maior governador que São Paulo já teve”. Mas, em 1987, poucos meses após sua posse, estouravam escândalos no Banespa, na “raspadinha” e outras situações nunca explicadas. Para eleger Luiz Antonio Fleury, Quércia não teve pejo em dizer que venceria as eleições mesmo que “quebrasse o Banespa”. E quebrou mesmo.

De qualquer forma, é preciso reconhecer e admitir: é essa linahgem política que encarna o que o Brasil tem de mais representativo diante do estilo de sociedade que escolhemos ou permitimos surgisse. Quando o pobre Gerson, campeão mundial, foi usado para anunciar ser “preciso levar vantagem em tudo”, poucas vozes ousaram discordar dele. Da mesma forma, sempre houve quem aplaudisse o “rouba mas faz”, estilo de governar atribuído aos “adhemaristas”. Por aqui mesmo, sempre houve quem defendesse a tese de que “tudo o que é legal é moral”.

Ora, grande parte da juventude brasileira entendeu, compreendeu e está tentando viver o que lhe foi ensinado. Essa nova ética se revela no que os moços dizem uns para os outros: “Seja esperto, rapaz.” Ser esperto, levar vantagem, vencer por vencer, não ter importância roubar desde que faça – é a escolha imposta à Nação diante do silêncio, do comodismo e até mesmo da cumplicidade das chamadas elites nacionais, incluindo a imprensa. Num “país de espertos”, gente esperta vota em políticos espertos. E continua tudo igual.

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