Filho vê a mãe Maysa, não vê a mulher.

Nenhum filho pode ou deveria escrever a história da humanidade dos pais, especialmente quando são, estes, movidos pela paixão. Jayme Monjardim, nos primeiros capítulos de Maysa, a minissérie, está lá, todo inteiro, todo filho, contando uma história de pai e mãe, tropeçando na Maysa mulher. Foi um risco que ele assumiu e que merece respeito. Talvez, seja, realmente, uma exorcização ou o ato final de um processo psicanalítico que, parecendo ter chegado ao fim, está apenas no começo, num recomeço.

Na minissérie da Globo, pelo menos nos primeiros capítulos, Maysa não existiu. A verdadeira, a imensa, a indecifrável, a insuperável Maysa aparece muito mais como uma “noviça rebelde”, muitas vezes irresponsável do que, desde jovem, alguém especial, com alma atormentada por dores existenciais. A minissérie, até aqui, limita-se a narrar e a registrar muito mais os efeitos do que a ou as causas. Um artista não se explica apenas por sua história familiar, por conflitos de adolescência, por normas de convenções sociais. O artista é, o artista nasce, como se os deuses o tivessem forjado com rendas especiais de alma, por isso mesmo mais sensíveis e frágeis.

Dificilmente, um filho, nascido das vísceras, consegue imaginar – ou tem coragem de admitir – a mãe com desejos, com insatisfações da carne, com sonhos eróticos, com prazeres de fêmea. Quando se arrisca a fazê-lo, esbarra, quase inevitavelmente, em alguma forma de moralismo ou de mágoa filial. Jayme Monjardim, pelo menos nesses primeiros capítulos, não viu, não quis ou não conseguiu ver. E será muito exigir dele que veja. Mas, por ser quase impossível a um filho ver, a conclusão primeira que se tem é simples: ele não deveria ter aceitado ou criado a empreitada. O pai, André Matarazzo, surgiu maior do que a mãe, Maysa, a mulher “à gauche” diante da sociedade paulistana, quatrocentona, aristocrática, esnobe e provinciana.

Maysa foi mulher atormentada por todos os demônios que não estavam nem na casa paterna, nem na mansão dos Matarazzo – mas no fundo de uma alma bordada com o que os deuses tinham de mais delicado e nobre. Maysa foi um permanente grito de socorro, a mulher desesperada sem desesperos explicáveis, uma agoniada diante da vida que, tendo-lhe dado tudo de bom e de belo materialmente, lhe deu mais ainda: a visão de o mundo poder ser melhor e mais bonito a partir da arte, da beleza e do amor. Maysa rebelou-se contra o feio e contra o preconceito. Sua proposta foi de amor, um amor coletivo que, sem excluir marido e filhos e família, não se prendeu apenas a eles. Ela enlouqueceu por amor ao amor.

Jayme Monjardim conta, até aqui, a versão do filho, após a longa distância do tempo, após digerir o que se passou. Mas é apenas a versão de um filho. Que, ao contrário de todos nós outros, amantes e apaixonados de Maysa – por quem e para quem ela cantou e compôs – não pode, como filho, entender e amar a feminilidade exacerbada de alguém insubstituível. A minissérie, por enquanto, esbarra numa triste caricatura de Maysa. Mas, talvez, seja isso mesmo: não há como contar e cantar Maysa, a não ser em caricatura.

Enfim, a verdade parece clara, cristalina, intocável: Maysa é lenda, Maysa é mito, Maysa é fábula. Portanto, como que uma história sagrada que se pode contar apenas ao pé do fogão. Pois parece de mentirinha.

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