A amoralidade política

Houve quem estranhasse o entusiástico apoio que o deputado Roberto Moraes deu à candidatura, à reeleição, do prefeito Barjas Negri. Para alguns, tratou-se de mais uma demonstração de imoralidade política, pois Roberto Moraes, há apenas quatro anos, foi o homem que mais denunciou Barjas Negri, em sua passagem pela vida pública, juntando verdadeiro dossiê de provas e entregando-o a pessoas influentes e à imprensa. Correligionários e antigos eleitores de Roberto Moraes dizem-se, alguns deles, escandalizados.

No entanto, escandalizar-se com acertos e acordos políticos é, no mínimo, sinal de imaturidade. Ou de ingenuidade. O universo político não é regido pela moralidade do cidadão, a moralidade da família, do lar, da vida civil. É um universo enlameado por sua própria natureza, que é a natureza do poder. Pois o poder é amoral. Logo, o cerne da política é a sua própria amoralidade ou, então, a moral própria, a ética “à gauche”, que são a ética e a moral do resultado. Aliás, no fundo e na realidade, ética e moral em nada diferem, mas o mundo das negociações resolveu estabelecer diversas éticas e não a moral que engloba a vida do cidadão em todos os setores. Por isso, há a ética dos bicheiros, a ética dos traficantes, a ética dos bandidos, a ética dos políticos. Com tantas éticas, não há que se falar em imoralidade, mas em absoluta e plena amoralidade.

O primeiro – historicamente documentado pelo menos – a entender disso foi Adhemar de Barros que se elegia e reelegia com o pérfido e acintoso bordão: “Rouba mas faz.” De uma certa forma – quem não se lembra do “Maluf faz”? – Paulo Maluf insistiu na mesma técnica e deu resultado, tanto e tal que se elegeu com votação recorde e espetacular, estando aí, novamente, como candidato à Prefeitura de São Paulo.

Roberto Moraes e Barjas Negri mostram-se, apenas, políticos altamente competentes, pragmáticos e conscientes da amoralidade política e na política. Questões de consciência, de honradez, de dignidade, de decência, isso são valores dos cidadãos comuns – dos que trabalham com o suor do rosto, dos que carregam princípios – conforme o próprio Weber nos deixou como lição imortal: a ética da consciência nada tem a ver com políticos, para quem o que vale é a ética do resultado. Por isso, Adhemar de Barros tinha adeptos: ele fazia, mesmo roubando. Por isso, Lula se elegeu e reelegeu à Presidência da República, com os acordos mais escandalosos e condenáveis aos olhos do cidadão comum, daquele que acredita no valor da honestidade e de lições milenares do povo, como o “dize-me com quem andas que te direi quem és.”

Em Piracicaba, Roberto Moraes e Barjas Negri, de mãos dadas e felizes da vida, apenas confirmam que o universo da política vive de sua própria amoralidade. Logo, não há que se julgar ninguém, pois, em política, nos últimos tempos, apenas não vale assaltar os cofres públicos com revólver na mão. Quanto ao mais, tudo vale e é o “vale tudo”, no reino da amoralidade. Piracicaba, aliás, assiste – com uma minoria estarrecida – aos mais estarrecedores acordos e parcerias: corruptos com ingênuos, setores da imprensa com políticos e com grupos de hospitais e com empreiteiros e com corretores de imóveis e com donos de supermercados, uma nova classe.

Num tempo de vale tudo, não há, pois, que se criticar político algum por acertos estranhos, que seria infantilidade. Afinal, é “tutti quanti”, como dizem os italianos. A arma do cidadão decente é, ainda, o voto. Se houver pessoas decentes que ainda queiram votar…

 

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